O escritor norte-americano James Ellroy aceitou convite para participar da nona edição da Flip, que acontece em julho. Ele deve vir lançar o livro Sangue Errante (Record), que fecha a trilogia do submundo americano, formada pelo Tablóide Americano e 6 Mil em Espécie. Os dois primeiros títulos da série ganharão versão em bolso a tempo da Festa Literária Internacional de Paraty.
A Record também adquiriu os direitos da autobiografia The Hilliker Curse: My Pursuit of Women, que deve ser lançada no ano que vem. O autor de policiais é mais conhecido pelos romances que originaram os filmes Dália Negra e Los Angeles – Cidade Proibida.
A organização da Flip reconhece que recebeu email com resposta afirmativa da agente do autor, mas ainda não confirma sua vinda.
Não sou fã da poesia de Adélia Prado. Vejam bem, isso é diferente de desmerecer a obra dela, que respeito, e o alcance que tem, principalmente em se tratando de um gênero tão pouco lido no Brasil. O auditório lotado do Cine Teatro Vila Rica, ontem, no Fórum das Letras de Ouro Preto, ajudou a dar a dimensão.
Mas houve um momento ali pouco depois do começo que me peguei encantada por aquela “pacata senhora mineira” (a expressão é referência a uma das formas como, segundo ela, costumam chamá-la em cartas). Daquele jeitinho tranquilo, macio, ela fala coisas como “Hitler, Stálin (…). Cometo os mesmos crimes em outra ordem, posso cortar o falo do meu marido sendo possessiva. Um crime tem sangue, o outro é incruento”. Ou “Quando me excluo, quando digo: ‘Aqui estão os bonzinhos, ali estão os malvados’… Isso não existe. Não há nação que vá para a frente assim”.
Ao ponto em que Edney Silvestre, que dividia a mesa com ela, achou por bem assumir papel de entrevistador junto com Leda Nagle, em vez de entrevistado ao lado de Adélia, já que era ela que todos queriam ouvir. Foi pena que mesmo com o reforço a mediação tenha errado a mão nas questões sobre fé e religiosidade. A certa altura, a própria Adélia constatou: “Depois vão dizer que dei aula de catecismo em vez de falar de literatura, mas olha as perguntas que vocês me fazem”. Instada a falar do tema, ela discorria e repetia: “Esquece Deus”, respondeu para Silvestre quando ele questionou se não ter fé diminuiria alguém, “você pode amar ao próximo e a si mesmo”.
Só hoje de manhã parei para pensar numa contradição no pensamento dela. Bem no começo, ela demonstrou imenso preciosismo ao explicar que pode enxugar e mexer quase infinitamente em versos até considerá-los dignos de publicação (“Você pode ir pro inferno se fizer uma coisa dessas”, disse, na minha frase preferida de toda a mesa, sobre enviar um texto para o editor sem ter certeza de que está bom). Mais perto do fim, tentando definir arte, mandou: “Não existe literatura pensada. A arte verdadeira tem sangue, excremento, suor (…). Não há transcendência que sobreviva ao banheiro”. Mas então reescrever não é pensar a literatura? Só é, mesmo nos casos em que a origem é pura inspiração – e, para mim, isso é sempre bom. Digo, reescrever. Saber que ela tem esse preciosismo só me faz admirá-la.
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Sou fã de poesia concreta, e acho que admitir isso é bem mais impopular que dizer que não sou fã da poesia de Adélia Prado. Conheço muito menos do que gostaria das origens do concretismo – o simbolismo, Ezra Pound, e.e. cummings e afins -, mas sempre me fascinou aquela linha tênue que separa a poesia do design, a literatura das artes plásticas. Então para mim, ontem, era muito mais esperada a mesa do Décio Pignatari, que veio logo depois da de Adélia.
É claro que, justamente por essa uma opinião impopular, Pignatari nem de longe atraiu tanta gente quanto Adélia. E ainda conseguiu perder umas cinco espectadoras de uma vez só ao dizer com todas as letras que “o teatro brasileiro é uma vergonha”.
Mas foi uma das mesas que mais me divertiram. Pignatari está bem velhinho, com 83 (aliás, o caçula dos concretos originais, Augusto de Campos, completa 80 no ano que vem). Eu nunca o tinha visto pessoalmente e fazia tempo que não via nenhuma entrevista com ele. Mas o resultado não é muito diferente do que a gente poderia imaginar. Se alguém é radical nos conceitos depois que a juventude já passou, e radical era tudo o que os concretos eram e seguiram sendo, essa característica tende só a se acentuar quando a velhice chega.
Daí que, depois que o mediador e o poeta Fred Barbosa, no palco com Pignatari, ficaram quase uma hora tecendo loas ao concreto e aos frutos do concretismo, foi engraçado quando Pignatari finalmente tomou a palavra: “Não estou interessado em nada disso, muito menos em poesia. Poesia é um saco, não tenho mais paciência. Não vou escrever nunca mais”.
Não vou aqui reproduzir tudo o que ele falou porque é mais ou menos aquilo que a gente leu nas últimas décadas, mas vale um exemplo que resume muito o que foi a mesa dele. Até porque ele repetiu umas cinco vezes, acho, algumas delas esquecendo que já tinha falado antes. “Sobre a velha Ouro Preto o ouro dos astros chove”, recitou, com ênfase, o verso de Olavo Bilac – que, se não me engano, aparece no livro dele O Que É Comunicação Poética. “Tem seis ôs fechados e um ó aberto. Isso é que é poesia, mas ninguém está entendendo nada disso. As pessoas tentam entender o conteúdo, mas a graça da poesia é que ela expande o verbal rumo ao não verbal.”
E uma gracinha, para finalizar, em resposta a quando o Fred Barbosa questionou o fato de ele dizer que poesia enche o saco e ao mesmo tempo ser aplaudido por um público ao falar de poesia: “Ora, não nasci ontem”, disse Pignatari. “Sou professor, sei seduzir um público”.
O jornalista Lira Neto, biógrafo da Maysa e do Padre Cícero, chegou ao hotel ontem, em Ouro Preto, preocupado com o fato de sua mesa ser no sábado de manhã, horário da ressaca. É claro que isso não o impediu de aproveitar a sexta à noite: Bira, Gui, Maria Fernanda (do Publishnews) e eu fomos jantar com ele na Casa dos Contos (cachaça de cortesia no cardápio, mas, em defesa do Lira, a cachaça ele não tomou). E só não estendemos pra um barzinho porque não tinha lugar aberto depois que nos sentimos convidados a parar de atrapalhar o sono dos garçons e cozinheiros.
Daí que ele ficou surpreso quando viu lotada a sala onde rolou hoje sua mesa sobre jornalismo e literatura com Paulo Markun e Edward Pimenta – no público, entre outros, Décio Pignatari, que saiu antes do fim, e Adélia Prado. Lira Neto é tipo showman, contador de causos, e repetiu tipo metade das histórias que tinha nos contado no restaurante. O resto acho que era impublicável.
Ele contou que esteve faz alguns meses aqui para investigar sobre seu próximo livro, uma trilogia sobre Getúlio Vargas a ser lançada nos próximos anos. Agora dá pra incluir uma história sobre a qual falou no jantar: ele sabia que Luiz Schwarcz tinha interesse em publicar uma megabiografia sobre Getúlio e que já havia inclusive convidado três biógrafos (acertei pelo menos um dos três, mas qualquer um acertaria) a abraçar a causa; como soube que os convites não tinham animado nenhum dos três, fez a sugestão, devidamente aceita.
A vinda para Ouro Preto era para confirmar uma lacuna na história pessoal do ex-presidente. Getúlio e o irmão estudaram na juventude em Ouro Preto – o irmão, mais velho, cursava a Escola de Minas, que formou alguns dos principais engenheiros do País; Getúlio cursava o Ginásio Mineiro. Sabia-se que nesse momento havia ocorrido um assassinato, que alguns biógrafos atribuem a Getúlio, e outros, ao irmão. Lira mergulhou nos arquivos da escola sobre Getúlio e não encontrou nada. Estava desistindo quando resolveu tentar algo que ninguém tinha feito antes: investigar os arquivos do irmão de Getúlio, um calhamaço empoeirado e desanimador. Mas lá estava a confirmação: era o irmão o assassino.
A mesa foi bem bacana. É curioso como a gente sempre valoriza mais mesas com estrangeiros, tipo a única chance de ver um grande autor gringo de perto, mas não raro mesas com brasileiros impressionam mais. No caso do Lira e do Markun, com detalhe importante: as biografias que fizeram incluem detalhes nunca antes publicados e que eles conseguiram por mérito próprio, ao contrário de jornalistas que escrevem sobre história e que apenas compilam dados já investigados por outras pessoas. Seguem algumas frases, trechos, momentos que me chamaram a atenção.
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“Quando Ruy Castro soube que eu faria uma biografia de Maysa, disse: ‘Cuidado, biografar mulher é encrenca, você se apaixona por ela.’ Não deu outra: tive ciúme de Ronaldo Bôscoli, o único homem à altura dela, além de mim” (Lira Neto)
“Quando Castelo Branco estava deixando a presidência, a contragosto, ele ligou para Rachel de Queiroz e disse: espalhe para seus amigos: o Brasil perde um presidente sem pesçoco para ganhar um sem cabeça” (Lira Neto)
“Meu principal personagem é o poder. Isso é claro na biografia do Castelo Branco, na do Alencar, cujo título é Inimigo do Rei (em relação a Dom Pedro 2º), na da Maysa, na relação com a imprensa, como ela usava a mídia e como a mídia a usava” (Lira Neto)
“Lira gosta do poder, eu gosto dos perdedores (como personagens). Você aprende com o fracasso. O Herzog, o Cabeza de Vaca, de certa maneira eles são perdedores” (Markun)
“Quando penso em fazer uma biografia, três coisas me vêm a cabeça: se tem gente que vai querer ler, se vai vender e se a história me interessa” (Markun)
“As biografias fazem sucesso porque as pessoas estão órfãs de narrativas. O romance contemporãneo, na busca por novas possibilidades, implodiu a narrativa. Isso é lindo, mas abriu essa lacuna” (Lira Neto)
“Biografia romanceada pra mim é algo indigesto. Vai fazer então um romance histórico” (Lira Neto)
“Eu acho necessária a regulamentação dos meios de comunicação. Não vejo esse perigo de tramas do governo como ouço por aí” (Markun)
Então é isso. Amanhã cedo (aliás, tão cedo que não deveria estar aqui postando) pego voo pra BH e sigo para o Fórum das Letras de Ouro Preto. Contarei tudo o que rolar de legal por aqui (você pode assinar os feeds) e também pelo meu Twitter.
Para entrar no clima, uma foto que tirei da última vez que estive por lá. Uma orientação para quem for à cidade: é proibido capotar seu caminhão.
A curadoria da Flip 2011 está passando por uma reestruturação.
Diretor de programação das três últimas edições da festa literária, Flávio Moura não ficará responsável pela curadoria do evento no ano que vem.
Há algumas semanas, ele assumiu o cargo de coordenador de internet no Instituto Moreira Salles – no lugar do escritor Michel Laub.
Moura continuará ligado à Flip, mas envolvido com projetos culturais de longo prazo.
2011
2010
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