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Vitória da planilha ou a antítese de Felipão

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

sábado 05/07/14

SENHORAS E SENHORES, O G-4 JÁ ESTÁ A POSTOS

Carles: Saudades das empolgantes oitavas?

Edu: Era de se esperar, porque o pessoal técnico está mais atento aos adversários, aos sistemas, aos erros possíveis. Da vitória argentina podemos falar daqui a pouco, mas este Holanda e Costa Rica é um retrato disso. A Holanda impôs volume de jogo, criou, chutou muito em gol, mas sabia que o inimigo sabe jogar por uma única bola. E quase aconteceu. Até que veio a carta na manga de Van Gaal.

Carles: Deu para sacar, conhecendo as ideias do homem da prancheta e vendo como, faltando poucos minutos para o fim da prorrogação, o preparador de goleiros holandês, Frans Hoek, começava uma coreografia de espasmos sem bola com o reserva Tim Krull, na beira do gramado.

Edu: Poderíamos dizer que essa grupo holandês superprofissional, mas que também teve tempo para brincar e passear em Ipanema, é a antítese da Família Scolari?

Carles: Por que não? Mas sinceramente eu fico satisfeito de que o visceral jogo do imponderável também premie o planejamento de vez em quando. Frio e calculista esse general…

Edu: General insuportavelmente meticuloso. Verdade que não soube sair do emaranhado tático dessa competentíssima seleção da América Central, que hoje abriu mão de atacar desde o primeiro minuto. Mesmo assim, e mais na base do abafa, a Holanda fez mais de 20 finalizações, 18 no alvo, com 11 defesas de Keylor Navas e três bolas na trave. Seria muito cruel se os neerlandeses não passassem. E Los Ticos já tiveram seu prêmio, com sobras, cá entre nós.

Carles: Imagina os Ticos chegando para a festa de fim de curso e encontrar alemães, brasileiros e argentinos? Não iam nem saber onde enfiar as mãos. Assim fica tudo em casa, quadra de ases, se bem que pelo que fizeram em campo nesta fase, merecer, merecer… o Brasil e a Colômbia pela entrega e um pouquinho a Alemanha, que nunca perde o rebolado. A grande mérito da Holanda é mostrar que é um time de 23 jogadores, todos com possibilidades de jogar e que provavelmente, fora de campo, foi o grupo que conviveu com maior normalidade com o entorno brasileiro. Mais que os anfitriões, eu me atreveria a dizer.

Edu: Não agora, com o episódio Neymar, que está funcionando como uma espécie de frente ampla nacional de agregação…

Carles: Já estou até vendo…

Edu: Mas este assunto fica para amanhã. Sobre a Costa Rica, é bom acrescentar que deixa a Copa invicta, será vista de forma  mais respeitosa a partir de agora e, podemos dizer, já sabe como enfrentar os grandes. É uma seleção graduada. Ao contrário da Bélgica por exemplo, que chegou toda empolada e foi time pequeno contra a Argentina, acovardou-se, mostrou que não sabe ser grande apesar de todos os craques que tem.

Carles: Dizem os defensores que é uma equipe em construção, que Marc Wilmots tem como objetivo a Eurocopa na França. A Copa mostrou que ele conta com bons alicerces, mas falta resolver uma porção de coisas, muita gente na frente e atrás mas um meio muito frágil e por isso foi muito fácil para essa Argentina irregular quebrar o adversário ao meio.

Edu: Tenho dúvidas sobre esses alicerces, Carlão. E mais dúvidas ainda sobre Wilmots, em função de um par de bobagens que andou dizendo e também pela sua falta de habilidade nas substituições e na forma de mexer taticamente no time durante os jogos. A Bélgica, na verdade, pareceu um time deslocado em meio aos grandes, algo como um país de Terceiro Mundo numa reunião do terrível G-8. E quanto à Argentina, põe irregular nisso. Jogou mal mesmo, o que pode ser resumido pelo fato de que o grande destaque foi zagueiro Garay (!!!). E Messi sucumbiu depois da saída de Di Maria, fazendo um segundo tempo bastante pobre.

Carles: E as últimas notícias não são nada boas para Messi e companhia, pelo visto a lesão muscular coloca Di María nas estatísticas de baixas, mais um emérito que não termina a Copa. Sem Neymar, sem Thiago, sem Di María, parece que Willian também teve um pequeno problema hoje no treino, como vai ser esse encontro do G-4, proibido para intrusos? Dá a impressão de que sai na frente quem tiver mais fortuna e um bocadinho de fôlego ainda.

Edu: Podemos até contestar um ou outro dos quatro, mas também desafio alguém a dizer que algum grande injustiçado ficou de fora. São quatro gigantes e um só lamento em relação ao que esperávamos desde o início e que ficou meio difusos diante dos empolgantes jogos deste Mundial: a vaga da Holanda seria da Espanha.

Carles: Você me conhece e sabe que eu discutiria sem problema, mas sem hora para terminar. Quanto a La Roja, fica para a próxima, quem sabe daqui outros 65 anos. Por ora imagino que o único que eles pretendem é apagar o caminho do Brasil do GPS.