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Um abacaxi para os europeus: evitar a ‘Copa América’

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

24 junho 2014 | 21:45

SURTO DE LUISITO E HOMENAGEM DE SAMARAS

Edu: Você pensando que o de pior já tinha acontecido com a Espanha – com raio incluído na aterrissagem em Madrid – e eis que a Itália também tem seu melodrama com toques de requinte. Técnico demitido, Pirlo aposentado e a caminho de casa levando uma dentada como souvenir.

Carles: Pois é, mas o maior perdedor nessa história pode ser aquele que tinha tudo para ganhar. Luisito parece que não se emenda. Fico imaginando essa tendência compulsiva a morder o grandão mais próximo, deve ter desenvolvido esse recurso de moleque, marrudo que é e, com frequência, tendo que enfrentar sujeitos enormes. No outro extremo, Prandelli, de quem eu não esperava menos. Basta ver como ele reagiu ao gol de Godín (sempre ele), sem nenhum trejeito teatral, só com um prolongado pestanejo. Daí, nos restantes 12 minutos de jogo e precisando desesperadamente de um gol, a Azzurra de Cesare não deu um só balão para a área. Tem gente que chama isso de falta de fibra, eu chamo de elegância.

Edu: Ok, perdeu com elegância mesmo, mas vai explicar isso para os tifosi. Com todo respeito, a Itália nem tinha jogo para ir muito longe e, se não saísse agora, estava condenada no mata-mata. Vi as mais variadas reações sobre o que fez Luisito. Jogador quando é bom é sempre perdoado por um pessoal disposto a dizer que ‘craque pode tudo’. É uma grande bobagem. Não tem influência no jogo um ato desses? É claro que tem. Mas, convenhamos, achar normal que o sujeito saia por aí distribuindo mordidas é caso de hospício. Luis Suárez mostra uma atração incontida por surtos, tem longuíssima folha corrida em episódios como esse e não é aceitável que alguém ainda passe a mão na cabeça do rapaz.

Carles: Não, longe de mim consentir esse tipo de atitude, apenas tratei de entender por que um cara bom de bola, desejado por todos os grandes clubes do mundo, mas com dificuldade de aceitação, pelo seu gênio infantil e caprichoso. Diante de uma certa recuperação da imagem e começando a superar a fama de problemático,  inclusive entusiasmando as grandes torcidas da Europa com sua possível contratação, volta a cair na tentação de fazer uma bobagem dessas. Só queria entender o que se passa na cabeça dele, nunca tolerar.

Edu: Não é você, não. Falo daqueles que sempre protegem as estrelinhas, aconteça o que acontecer. Por isso que tipos mimados assim costumam sair ainda mais arrogantes desses episódios. Agora será inevitável que o Uruguai pague por isso já no jogo contra a Colômbia, um clássico dos mais fervidos na atual América do Sul. E que fiquem de olho nesse jovem time colombiano, ofensivo, metido a besta e que gosta de arriscar.

Carles: Só não sei se um grupo em que a triste seleção grega consegue passar com um gol de pênalti no último minuto serve para aferir as reais possibilidades da seleção colombiana. Mesmo assim, se eu tivesse que apontar um favorito hoje, simplesmente por futebol, eu apostaria nesse grupo de jovens talentosos com um imenso James Rodriguez (completa 23 anos de idade na véspera da final), e liderados pela velha raposa do futebol José Néstor Pékerman. Não sei se eles resistirão à maior experiência e malicia de outras seleções, mas pela alegria e desenvoltura do jogo, não tenho dúvidas. E dando-se ao luxo de homenagear o veterano goleiro e agora recordista Mondragón, em plena Copa do Mundo.

Edu: A mesma Copa que terá uma oitavas de final entre Costa Rica e Grécia. Será que mesmo as maiores ratazanas das casas de apostas jogariam um tostão nesse duelo antes de o torneio começar? E com mais um gol nos descontos, do grande Samaras, um dos personagens mais ‘freak’ do Mundial, que aproveitou a entrevista pós-jogo para valorizar o sorriso que seu time levou ao sofrido povo grego, transformado na palmatória da zona do euro e pagando um alto preço pelas asneiras alheias. À parte da grandeza da homenagem, é bem complicado que a Grécia passe daqui, ou seja, teremos Los Ticos nas quartas.

Carles: Assim espero. O simpático gigantão Samaras certamente tem outros recursos para homenagear seus sofridos conterrâneos do que seguir contaminando a “Copa das Copas” com o modelo de futebol grego. Sei que é meio precipitado, mas como jogador de botão que penteia cabelo grisalho não resisto a especular. Costa Rica nas quartas contra Holanda, Argentina contra EUA ou Bélgica, Brasil contra Colômbia e França contra Alemanha. Já tirou o pó da sua bola de cristal? É por aí?

Edu: É um bom caminho, sem dúvida, mas como  prefiro ainda especular sobre o que falta para as oitavas, tudo depende se alemães e norte-americanos fizerem ou não um jogo de compadres, cujo empate classifica os dois. Do contrário pode pintar um africano, Gana, e até a interessante Argélia do seu vizinho Feghouli, que tem mostrado muito mais jogo que os russos de Capelo. Mas aí só por mais uma fase, porque resistir ao mata-mata é outro departamento, só ficam cachorros grandes (sem trocadilho com Luisito, juro) – desta vez acompanhados pela Costa Rica.

Carles: Os males do Luisito, certamente Freud explica. Bom, devo entender então que você nem quer ouvir falar ainda das possíveis semis entre os cachorrões famintos, algo assim como um Brasil-Alemanha e Holanda-Argentina. E depois, uma final entre vizinhos no Maracanã. Nem nos melhores sonhos de Blatter. Retrocedendo então à atualidade, disso tudo que você falou, interessa-me principalmente essa fraternidade entre germanos e ianques, que fez muita gente recordar o famoso ‘Pacto de Gijón’ na Copa de 1982 em que os alemães precisavam ganhar – e ganharam – da Áustria por um a zero para que os dois passassem. Por outro lado, Klinsmann rejeita totalmente a ideia, lembrando que seu time, estando já classificado, ganhou da Costa Rica nas eliminatórias para a Copa 2010 e do Panamá, faz uns meses, pela fase de fase classificação para esta Copa. A diferença é que agora tem o incentivo de ser campeão do grupo.

Edu: É o que veremos na quinta-feira. Mas é bom lembrar que os campeões mundiais europeus que restaram – Alemanha e França – têm a obrigação de descascar esse abacaxi com a ajuda de belgas e holandeses, ou então isso aqui vai se transformar de uma vez numa Copa América.

Carles: Com alguns ilustres convidados, mas acho que até já virou.