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Quando os fracos não têm vez

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

03 julho 2014 | 20:37

DUELOS CLÁSSICOS, PRESSÃO ALTA E INCÓGNITAS NAS QUARTAS

Edu: Como a Colômbia não é exatamente uma zebra, é top 10 no ranking Fifa, temos sete cachorros grandes e uma surpresa nas quartas. Comecemos por ela. Curto e direto, a Costa Rica tem chance?

Carles: Chance sim, mas provavelmente chegou ao seu limite máximo, segundo a percepção geral, inclusive a deles mesmos, e por essa razão devem levar ao gramado uma sensação de saciedade e, com isso, menos ambição. Concorda?

Edu: Concordo. Milagre tem limite até para Keylor Navas e o time está bastante desgastado fisicamente, incluindo seus dois principais jogadores de frente, Bryan Ruiz e Joel Campbell. E Van Gaal deve ter produzido um software nos últimos dias para saber como explorar as debilidades dos costarriquenhos. Mesmo assim, dá a sensação de que não será uma tarefa das mais fáceis.

Carles: Não tem sido para ninguém. Além do equilíbrio de forças, não se pode negar o grande desgaste que tem provocado esta Copa, alta em graus centígrados, em porcentagem de umidade, nos quilômetros percorridos e ainda tem essa permanente exposição às altas tensões. Mas voltemos aos jogos das quartas, Holanda e Costa Rica não é o único confronto entre continentes deste sábado, e com favoritismo invertido. A força e a juventude dos belgas serão suficientes para mandar um dos favoritos de volta para casa?

Edu: Talvez seja a maior incógnita desta fase. Se partir para o jogo franco, a Bélgica toma uma tunda. É muito vulnerável no meio de campo e no ‘um contra um’, na defesa, é um convite para Messi e Di Maria. Mas se os belgas forem um pouco mais cuidadosos sem deixar de explorar sua principal arma, os rápidos atacantes, aí serão os hermanos que vão ver o tamanho da encrenca. Tenho comigo que Sabella vai afinar e botar Max Rodrigues em lugar de Lavezzi, talvez até tire Fernando Gago, que tem feito partidas frouxas mesmo na sua especialidade, a marcação. Nesse caso entraria Lucas Biglia, também pegador, mas com mais habilidade para tocar e até finalizar. É jogo que pode ter de tudo, até uma prorrogação.

Carles: Acho que não vai ser tão simples o Gago sair de um time que já tem conquistado o título da autogestão, já que Camarões foi para casa. Por isso pode até começar com Maxi mesmo e a possibilidade remota de Agüero estar a postos para uns minutinhos. Acho que a chave desse jogo será mesmo se a Bélgica for capaz de dificultar mais ou menos aos argentinos. Na sexta, europeus e americanos também, mas em confrontos fratricidas. Por onde quer começar?

Edu: Falamos tanto de calor e esse França-Alemanha não vai escapar do flagelo, talvez no pior momento. Jogo à uma hora da tarde, no Rio, pressão do Maracanã, alta umidade e muitos jogadores desgastados. É uma rivalidade clássica em Copas e não abro mão de cravar a Alemanha favorita, mas terá que trabalhar muito. Não acho que será um encontro de cavalheiros, por mais que infeliz o Sarkozy (hoje no lugar que merece) tenha, digamos, se afeiçoado a Ms. Merkel nos últimos anos.

Carles: Muito provavelmente graças às questões extracampo (e intra também) o Brasil conseguiu fazer da Alemanha a grande favorito nas apostas. Portanto o máximo que dá pra fazer pelos enfants de la patrie será torcer, mesmo porque o grande problema de Löw é decidir se mantém Lahm no meio ou coloca na lateral. Problemããããoooo, né? Nesse caso, o bom  do Joachim vai ter que arregaçar as mangas e ele mesmo resolver taticamente esse time tão “aguardiolado”.

Edu: E em Fortaleza, tem cara de ‘Castelazo’? Ou o gigante vai voltar aos trilhos?

Carles: Andei lendo aqui e ali que este é um embate entre o melhor futebol e a camisa de mais peso do torneio… que os colombianos não seguram essa contra o anfitrião, nada menos que o país do futebol e ainda por cima, ferido. Todo torcedor anda à espera do grande momento, de poder ver a seleção brasileira jogar, no mínimo, como fez em alguns amistosos antes da Copa. E é até compreensível essa torcida de próprios e até de estranhos. É pura desconfiança de que o potencial campeão da Copa possa não estar à altura de um campeonato tão empolgante.

Edu: Mas tem uma realidade técnica que vai além desses conceitos bonitinhos mas nada palpáveis hoje em dia. Na real, a Seleção terá que se ver contra um time habilidoso e rápido, virtudes com as quais o Brasil tem se dado muito mal, e com James e Cuadrado, dois dos maiores jogadores deste Mundial. Buscar soluções de jogo, o que seria mais lógico, ficou em segundo plano nesta semana em que se discutiu até Freud, menos quem vai resolver a situação do meio de campo. Tenho comigo que Felipão vai fechar o time, vai recuar Hulk e Oscar ao lado dos volantes e ver o que acontece para o segundo tempo. Se não funcionar, Fred, quem diria, dança, fará seus últimos minutos como titular, e o Brasil da Família Scolari se renderá à fórmula do venerável Del Bosque, com o falso 9, Neymar certamente. Sente alguma firmeza?

Carles: Falso 9 o Neymar? Só se for tão falso que não fique incrustado entre os centrais nem seja obrigado a receber de costas, porque aí não tem conspiração cósmica ou decibéis na cantoria do hino que salvem. Talvez Oscar, mas acho que ele nem foi.

Edu: Não podemos nos queixar de falta de tensão, intensidade e suspense, ao menos. Um final de Copa que poderia muito bem ser dirigido pelo velho ranzinza, mas sempre mestre, Alfred Hitchcock. Se bem que, diante de tantas bizarrices nos finais de jogos e prorrogações, talvez esteja mais para os Irmãos Coen.

Carles: Segundo Joel e Ethan, os fracos não têm vez.