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Pedreiras e molezas da segunda fase

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

26 junho 2014 | 20:58

ÚLTIMA RODADA COM ALMA GUERREIRA E DESPEDIDA DO MELHOR DO MUNDO

Carles: A Copa Mundial de Futebol e Campinas já não serão as mesmas, sem o “Melhor Jogador do Mundo”…

Edu: Triste passagem essa dos patrícios quase 200 anos depois de terem deixado seu legado de três séculos de colonização por aqui. Mas eu pergunto: pelo que fizeram jogando bola, mereciam coisa melhor?

Carles: Nem eles nem os russos mereciam. Agora, curioso que se hoje Cristiano conseguisse marcar todos os mano a mano que teve com o Fatau Dauda talvez até tivesse dado (não por isso seria merecido). A verdade é que muitos craques não foram ao Brasil por falta de condições físicas. Outros foram, mas não estiveram e caminharam irreconhecíveis pelo campo, empurrados pelos seus faustuosos compromissos comerciais.

Edu: E sem o melhor Cristiano, Portugal não tem corpo e alma. Só hoje tivemos exemplos de times que estão longe de ter sequer um projeto de craque, mas que fazem do jogo coletivo sua única ferramenta possível. Limitadíssimos tecnicamente, os norte-americanos passam com louvor de fase porque se revelaram um bloco dedicado, taticamente disciplinado e disposto ao sacrifício. E quer mais demonstração de sangue e alma do que esta Argélia que honrou seu passado de valentia e representará com orgulho nas oitavas de final o mundo árabe?

Carles: Muito contente por eles, que têm, sim, os gloriosos Feghouli e Brahimi, dos não menos gloriosos Valencia e Granada, oitavo e décimo quinto colocados da Liga Espanhola. Tanto foram à fonte que acabaram conseguindo o empate com o chatíssimo time de Capelo, que vai mais cedo tomar seu vinho em Moscou. Agora, os ianques… esses não perderam a posição até agora, se o administrador do Arena Pernambuco acender as luzes do estádio, provavelmente eles ainda vão estar lá, cada um na sua. Para se ter uma ideia, faltando pouco mais de dez minutos para o fim do jogo, a referência do time, Dempsey, tinha dado 25 toques na bola, o que menos tocou entre todos os jogadores em campo. E Bradley, recomendado a sua grife favorita de chuteiras a quase todos os adversários, deixando a marca nas suas canelas para que eles não esquecessem.

Edu: Sabemos que americanos e argelinos não irão longe, Carlão, mas é preciso reconhecer o espírito dessas equipes menos privilegiadas que utilizam as modestas armas que têm. Aliás, em uma primeira fase muito louca, só vi dois times com um padrão que a gente pode chamar de sustentável, que jogaram com ordem e objetividade nas três partidas para ir melhorando pouco a pouco: Costa Rica e Holanda (apesar do susto que levou da Austrália). Num degrau abaixo, a Colômbia, mas com o desconto de ter vencido um grupo muito fraco. Porque, se formos pensar nos gigantes, houve muito mais brilho individual do que coletivo tanto em quem segue na briga quanto entre os que já foram embora com o rabinho entre as pernas.

Carles: Achei que fosse esse mesmo o plano de Blatter e dos grandes patrocinadores. Os heróis que com sua habilidade e talento individual são capazes de vencer o exército de biônicos anônimos como naquele comercial de uma das grandes marcas esportivas, se não me engano. Concordo com você, Zé. Costa Rica, Holanda e Colômbia podem ser mesmo apontadas como exemplos de padrão associativo, de identidade coletiva, mas provavelmente também mostraram as grandes revelações individuais como Navas, Campbell, Ruiz, Cuadrado, James Rodríguez, Jackson Martínez, Memphis Depay, Daley Blind, etc. Bom, no caso da Holanda, os veteranos também foram importantes. Uma boa química né? São seus favoritos ou daqui para frente, a coisa é só para gente grande?

Edu: Não sei quanto tempo resistirão porque o mata-mata costuma funcionar como um tsunami, mas já fizeram uma grande Copa. Será a Holanda, aliás, o único obstáculo real para Leo Messi a caminho da final, porque as outras pedreiras todas estão do outro lado. Da imprevisível pedreira Brasil-Chile, sairá o adversário de Colômbia ou Uruguai, que continua perigoso mesmo sem a boca nervosa de Luisito (poderia dizer que é um time ‘mordido’, mas seria muita apelação). E, na sequência, ainda virão França e Alemanha. Na aba dos hermanos, primeiro a invertebrada Suíça e em seguida, nas quartas, talvez esta ainda inexpressiva Bélgica, que ganhou três jogos e não agradou em nenhum. Só aí virá a parte complicada, certamente o time de Van Gaal. Você vê algum candidato além desses, estão todos aí né?

Carles: Eu sigo com meu palpitão de torcedor médio e doido para ser contradito por uma enxurrada de realidade. Adoraria ser desmentido pela seleção da Costa Rica ou por esses bravos argelinos, mas acho que, no fim, não vai ter nem mesmo para França, Bélgica ou Colômbia. Esta Copa se resolve nos duelos Neymar-Müller e Messi-Robben. Pode me cobrar e se não for assim, eu desminto, aliás, como todo mundo faz, não é mesmo?

Edu: Todo mundo faz, com a maior cara de pau. Mas Copa também é isso. Como amanhã tem folga e falando em palpites, proponho elegermos os melhores da primeira fase e comparar com aquela relação que prevíamos alguns dias antes da abertura. Provavelmente teremos que pagar um par de micos.

Carles: Topo, mas, como já disse, pretendo fingir que não é comigo.