1. Usuário
Assine o Estadão
assine


Neymar Futebol Clube, Fernandinho e pouco mais

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

23 junho 2014 | 20:44

VEM AÍ O CARROSSEL CHILENO

Carles: Todos os problemas resolvidos com Fernandinho ou foi uma miragem contra um Camarões desaparecido no segundo tempo?

Edu: Todos não, nem de longe. E Camarões não foi nem mais nem menos do que se imaginava. O que Fernandinho trouxe foi algo que todo mundo estava vendo, menos quem deveria: dinâmica. Era a grande virtude de Paulinho até que o Tottenham entrou em sua vida. Mas Fernandinho faz muito bem essa função, defende com vigor e sai para se relacionar com os atacantes com muita eficiência. Só que há coisas ainda muito ruins ainda e você sabe quais são.

Carles: Assisti ao jogo do Brasil por uma das emissoras brasileiras através de internet e fiquei surpreso com o linchamento do Paulinho – mesmo reconhecendo que ele não é o mesmo de antes dos Spurs. Os dois comentaristas passaram o segundo tempo inteirinho enterrando os restos futebolísticos do moço, como causador de todos os males do país, enquanto um deles, mais prepotente, insinuava ter antecipado a solução, no caso, a entrada de Fernandinho, e o colega parecia ter-se decantado por Hernanes. Mas numa coisa eles coincidiam: sem Paulinho, melhor. Quero ver essa genial solução contra o Chile, ou melhor, contra o seguinte, por que insisto, os chilenos vão sofrer o complexo do Cone Sul contra os anfitriões. Sinceramente, não gostei do Brasil, exceção a Neymar, e se Camarões tivesse voltado depois do intervalo, a bola seguiria sem passar pelo meio campo brasileiro.

Edu: Neymar Futebol Clube é um caso à parte e sem solução, é uma dependência que vai continuar. Enquanto ele estiver bem, sem problemas, mas, nas horas baixas, aí o déficit do resto do time vai aparecer ainda mais. Os problemas nas laterais continuam graves, a irregularidade Oscar é preocupante e não vejo muita solução para outros dois jogadores, além de Paulinho, o simpático e Hulk e Fred. Sim, porque cada vez mais a dependência das individualidades fica mais relevante, uma vez que as formas e ideias de jogo continuam obscuras. Por isso, não se fie do passado chileno, porque em matéria de futebol, há equilíbrio em quase todos os sentidos, até com uma vantagem para os chilenos quanto ao esquema de jogo.

Carles: E poderia muito bem ter sido Holanda, se não fossem os gols legítimos do mexicano Gio dos Santos contra Camarões, anulados. Não, nem acho que a atual seleção chilena tenha algo que ver com o passado deles, mas o Chile sempre teve bons jogadores. A diferença agora é que, quiçá por primeira vez, eles têm uma identidade, muito mais argentina e por isso talvez sejam tão competitivos. O ponto fraco desse time chileno segue sendo o sistema defensivo que, no máximo, joga com um zagueiro de origem. E aí, ao mínimo erro, Neymar não perdoa.  O problema é que isso vai cristalizando ainda mais a sensação triunfalista que invadiu o Estádio Mané Garrincha, hoje, quando o juiz apitou o final. Os narradores estavam comemorando o olé nos descontos que, segundo eles, não teve nos dois primeiros jogos. Será que só eu vi a diferença entre o sufoco do México e a passividade dos africanos?

Edu: Não, não, muita gente viu – talvez só os tais comentaristas que não. E a festa no estádio Mané Garrincha nem tem tanto a ver com o futebol jogado, Carlão. É uma festa da Copa. O torcedor brasileiro quer comemorar também – como os mexicanos, os vizinhos do Sul, os norte-americanos, os holandeses. E a Seleção não estava ajudando muito, principalmente depois daquele empate. Então, surgem quatro gols, uma partida bem disputada, alguns detalhes técnicos, e o pessoal grita, canta, apoia. Mas não quer dizer que o torcedor está iludido, esteja certo. Até porque está claro que a Copa real no aspecto técnico começa de verdade é no mata-mata.

Carles: Nesse caso, garanto que não vou ser eu a estragar a festa. Amanhã tem mais decisão, mais um sul-americano jogando o seu destino na Copa de verdade, e contra outro europeu. Segundo a tendência, passam Luisito e sua turma para completar um 90% de êxito das seleções americanas, apesar da vantagem do empate para os italianos. Só mesmo uma seleção americana, Honduras, parece condenada a assistir a próxima fase pela tevê ou desde a arquibancada.

Edu: Esse Uruguai-Itália tem potencial para ser um capitulo à parte da Copa nos ares quentes de Natal. Na várzea diríamos que é o tipo de jogo pau-puro. Mais um campeão do mundo vai entrar de férias.

Carles: Arrisca qual?

Edu: Luisito fica.

Carles: Finalmente estamos de acordo.