1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Metade medo, metade jogo de xadrez

Carles Martí e José Eduardo de Carvalho

09 julho 2014 | 20:50

SEMIFINAL ANTI-COPA E UMA DECISÃO IMPREVISÍVEL

Carles: Podia piorar…

Edu: Para o Brasil, você diz?

Carles: Para a torcida brasileira.

Edu: Não, esteja certo que não, nada é pior do que aquilo do Mineirão. Pior foi para a Copa, que viu uma semifinal mesquinha, anti-Copa, metade medo, metade jogo de xadrez.

Carles: Culpa da Alemanha que tinha deixado a coisa num nível praticamente inatingível. O pior é assistir à possibilidade de os argentinos ganharem a Copa do Mundo em casa. Pior ainda, um time que marcou só dois gols desde a fase de grupos, para conseguir duas vitórias mínimas, uma delas, contra a Suíça, com a prorrogação agonizando.

Edu: O que se viu hoje foi um retrato acabado de conservadorismo tático e falta de ambição, coisa rara nesta Copa. Mas é uma mostra de que o indefectível ‘novo futebol’, menos criativo e baseado no erro zero, continua vivo. Sejamos justos: a Argentina mostrou um tantinho mais, buscou mais, chegou a arriscar duas ou três vezes. Mas o general Van Gaal, enfim, mostrou sua versão original e o time que mais surpresas tinha demonstrado durante o Mundial foi previsível e covarde na hora mais importante. Essa Holanda continua tendo surtos de tremedeira diante dos grandes quando o jogo é decisivo.

Carles: Cá entre nós e sem que os grandes analistas táticos nos ouçam, você não acha que foi um pouco pavor dos dois lados, depois de ver a outra semi?

Edu: Não tenho a menor dúvida. A Seleção Brasileira foi a cobaia ideal para quem pretendia algum experimento mais ousado. Mas gostaria muito de saber o que o honorável e bocudo Johan Cruyff acha disso.

Carles: E agora dando corda aos enfermos das estratégias, também acho que o general está até agora esperando que os argentinos deem espaço. Se não consegue atrair o adversário para o seu campo e separar as linhas contrárias, essa Holanda não é nada disso. Possível conclusão: inocente Del Bosque e inocente Scolari que deram o espaço que nem Costa Rica deu aos neerlandeses, nem Gana aos teutões.

Edu: Teremos uma final entre clássicos, dois candidatos que estavam na lista de favoritos faz tempo, mas realmente não estamos livres de ver essa Argentina, eternamente pendurada nos espasmos de Lionel Messi, jogar uma bolinha das mais medíocres na decisão e ainda sair com a taça. Ou você acha que será uma barbada para os alemães?

Carles: De jeito nenhum. Digo mais, hoje eu apostaria meus poucos cobres nos vossos vizinhos, nem que tenha que ser mais um jogo amarrado e decidido nos pênaltis. Nesse caso, eu quero ver a Fifa não dar o prêmio de melhor jogador ao Mascherano, seria pelo menos o mais coerente com esse estilo de jogo. Ou, no mínimo, uma condecoração ao soldado mais valente.

Edu: Seria um prêmio também ao antifutebol, né Carlão, um reconhecimento ao destruidor-mor do jogo jogado. Espero que fiquemos livres dessa hipótese. E Messi, com duas ou três coisinhas que faz, continua sendo impressionante. Parece sem a melhor condição física, corre pouco, não se desloca com frequência, mas, mesmo cercado por uns quantos todo tempo, consegue tirar água de pedra. Se for campeão, La Pulga fica com o título de melhor da Copa sem o menor risco de erro. Ou então que se crie um prêmio coletivo aos alemães, o que também seria inovador e justíssimo.

Carles: Apesar de fã do jefecito, pensei que tinha ficado claro que era uma ironia. É obvio que antes de dar o prêmio a um  coadjuvante, mesmo que valoroso, o prêmio iria para Messi ou não descarto a possibilidade de que mesmo perdendo, o escolhido fosse Müller, com tropicão e tudo. No caso da primeira opção, mais ortodoxa, Leo vai ter que dar uma mãozinha e fazer essas duas ou três coisinhas que ficam bem bacanas no video wall em câmera superlenta.

Edu: Se pularmos a parte do tornado que passou pelo Mineirão, e que poderia muito bem ser evitado, é preciso reconhecer que o Mundial brasileiro tem uma final à altura de sua qualidade. E à Seleção Brasileira restará enfrentar pelo terceiro lugar um inimigo visceral dos jogadores da terra. Van Gaal, como Cruyff, vai ter um gostinho especial em tentar tripudiar sobre o time que está agonizando na UTI. E, para complicar, a dupla que comanda a Seleção Nacional deu uma entrevista dantesca hoje, na qual não só não reconheceu qualquer erro como, de forma prepotente e alucinada, cravou que a campanha foi boa, porque há não sei quanto o tempo o time não chegava às semifinais, o que, na visão deles, Felipão & Parreira, é o que interessa. Foi uma banana para as críticas e para o bom-senso, mesmo depois do dilúvio. Francamente e parafraseando nosso quase sempre genial Almodóvar, ‘¿Qué he hecho yo para merecer esto?’.