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Falar o quê?

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

terça-feira 08/07/14

8 DE JULHO DE 2014

Edu: Falávamos sobre o que mesmo?

Carles: De que um bando de argentinos e holandeses assustados foi visto em plena fuga em direção ao aeroporto do Galeão.

Edu: Pois eu sonhei que um bando de brasileiros saía correndo do Mineirão, veja você.

Carles: Olha, conselho de quem passou por isso não tem um mês: logo passa. Inclusive a Seleção Brasileira pode ter a sorte de que esse seja um ponto de inflexão e aproveitar para recuperar a sua verdadeira vocação. Curiosamente, na abertura da transmissão aqui, o locutor anunciou: vem aí o Brasil da força e a Alemanha do tique-taca, Brasil disfarçado de Alemanha, e Alemanha disfarçada de Brasil.

Edu: Só que o Brasil, se tivesse mesmo disfarçado de Alemanha, não passaria por isso. Essa implosão que se viu hoje – e que joga para a seleção pentacampeã uma tarja preta de humilhação para o resto da história – não tem só explicações técnicas ou táticas, é um conjunto de bizarrices que foram se agravando no último mês. E nem sei se neste momento é possível pensar nisso como uma lição a ser aproveitada, uma saída convencional nessas ocasiões. O que tirar de um massacre desses?

Carles: De que os erros se pagam, mas a vida segue. A melhor Alemanha e o pior Brasil se encontraram no dia 8 de Julho de 2014 numa Copa genial e divertida, com um futebol alegre e aberto. Que o futebol brasileiro precisa reciclar as ideias e que já não basta ter jogadores talentosos, se eles se sentem perdidos, se dão a sensação de serem os piores do mundo, quando antes da Copa eram disputados pelos grandes clubes. E dentro de dois meses, Oscar, Willian, David Luiz, Thiago Silva, Marcelo… vão voltar a ter uma cotação alta. Quer mais? Essa história de mancha no currículo, vai me desculpar Zé, mas é coisa para chefe de RH. Já passou da hora que Parreira, Felipão, Murtosa, Marin se aposentarem ou que vão contar as suas antologias. Esses são os que não têm nada a acrescentar. Se tem alguma mancha na história do futebol brasileiro, certamente não é uma derrota no campo que isso é uma circunstância do jogo. Em todo caso, é só o efeito. Doloroso é verdade.

Edu: Efeito inevitável Carlão, porque nem o mais frio analista, o mais desencanado patrocinador ou o mais compreensivo torcedor vai se esquecer disso, algo que no mundo do futebol vai  servir como novo paradigma para a palavra ‘vexame’. Não é dramatizar, não se trata de uma tragédia, mas humilhação esportiva é isso, não duvide. Essa pecha vai seguir, implacável. Por outro lado, como diz nossa fiel seguidora Fernanda Miranda, ao menos nunca mais vai se falar do desastre de 1950.

Carles: Veja o lado bom, sentir-se humilhado numa situação destas é só para quem pode contar os momentos pífios nos dedos duma mão. Outros, estamos fazendo máximo esforço por alcançar um número equivalente de jornadas gloriosas. A vantagem, veja você, é que assimilamos os reveses com maior facilidade. Pode ter certeza que o Brasil fez uma magnífica Copa, só não teve um time de futebol dentro de campo (nem na beira) à altura. Não é hora de escolher “barbosas” para crucificar (aliás uma boa oportunidade para corrigir algumas injustiças) mas de abrir as janelas para deixar o ar fresco entrar (e se de quebra o vento levar algum dirigente indesejável, melhor) e seguir desfrutando dessa magnífica festa que vocês organizaram. Depois de a ressaca passar, claro.

Edu: Falaremos muito ainda desta grande Copa, que não acabou e deve ter um final eletrizante. Não é essa a questão. Mas não podemos reduzir o significado de um capítulo nefasto desses para a trajetória da Seleção Brasileira e por isso defendo que ocasiões assim não podem ficar na conta do ‘Aconteceu, paciência’, como disse, na entrevista obrigatória depois do jogo, o treinador responsável por essa tunda. Concordo que não é hora de escolher ‘barbosas’ entre os jogadores, embora muitos deles estejam condenados, saem do Mundial com seu valor esportivo despencando e verão o resultado disso no mercado de compras europeu que se abrirá a seguir. Mas há ‘barbosas’, sim, no banco de reservas e é preciso perpetuar esse episódio para que aberrações semelhantes nunca mais se repitam. Você sabe que não teria problema nenhum perder da Alemanha (ou da Holanda, ou da Argentina), só que diante do que foi visto, acho que vamos precisar de algo mais que ar fresco.

Carles: Se fosse por 1 a 0 o efeito prático seria o mesmo, e talvez os que se perpetuassem fossem eles. Com o 7 a 1, nem ele próprio acredita nessa história de ‘Aconteceu, paciência’. Uma coisa: sério mesmo que foi o que ele disse?

Edu: Seríssimo… Disse mais, que faria tudo de novo, além de deixar escapar algumas críticas pontuais aos jogadores e assumir, protocolarmente, que o treinador foi o responsável pela desgraça. E ninguém tirou o microfone dele. Bom, Carlão, não pretendo mais, e acho que nem você, ficar chutando cachorro morto nem pedir que se comece a faxina pela óbvia destituição do responsável maior por tudo isso. A sucessão de equívocos também passou por outras figuras e não isento o espírito passivo dos jogadores, que se caracterizaram pela falta de autossuficiência e de personalidade para peitar a comissão técnica. Isso que vimos hoje, descontado o fato de estarmos meios zonzos depois de tanta bordoada, é a conclusão de um processo que começou todo torto e ilógico, e cuja coroação foi a farsa dramática regada por rios de lágrimas derramadas dos últimos 30 dias, quando se falou de tudo, menos de futebol, de treinamento, de preparação tática racional. Com o aval da mídia medíocre que passou o último ano e meio paparicando a Comissão Técnica, com medo de questionar e enfrentar a ira do chefão.

Carles: Tem razão, tudo isso ficaria muito melhor mesmo num roteiro de novela.