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Exercícios mentais para saber viver sem Neymar

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

06 julho 2014 | 18:49

TRANCAR OU DESTRAVAR O TIME? TIRAR O CENTROAVANTE? REZAR?

Edu: De tudo o que já foi dito, escrito e repetido sobre como será a vida do Brasil sem Neymar, uma conclusão parece clara: as críticas à Seleção mudaram de patamar e, agora, até o mais ferrenho defensor de estilos clássicos já admite que não há mais hipótese de futebol atraente. Portanto, o negócio é ser pragmático.

Carles: Vale tudo, menos perder o caneco, é isso?

Edu: Vale tudo é forte demais (talvez não para Felipão), mas jogar feio se for o caso e sem fazer concessões pode ser.

Carles: Bom, essa foi a última declaração de Neymar, já antes do jogo contra a Colômbia: “Não viemos (de onde?) dar show, viemos ganhar”. Devo entender que agora liberou geral ou a diferença é que está justificada a escolha de um caminho menos atraente? Seria uma pena mesmo, porque diante das posturas também pragmática de alemães e holandeses que não se fiam nem um pouco do clima e dos gramados e dos argentinos que não botam fé no próprio time, o que poderiam ser 3 ou 4 jogos históricos podem se transformar em uma disputa entre especuladores, esperando o erro alheio. Se for assim, ganhe quem ganhar, perde o espectador.

Edu: Ninguém quer ver futebol feio, Carlão, exceto os poucos de sempre. E há circunstâncias que exigem medidas de emergência. Se você lembrar que o Brasil já não vinha com uma proposta muito atraente, imagine então agora. Mas, pergunto, há outra saída? Neymar esteve no time por 38 jogos consecutivos e a experiência de jogar sem esse ponto de referência não existe para a atual Seleção. Não há milagre que possa ser feito, não aparecerá no atual elenco um jogador com peso específico que se aproxime minimamente da importância de Ney. Portanto, que opções o time tem que não seja adotar algo conservador, diante do comando e do elenco que temos? Que outra opção é possível? Partir tresloucadamente para cima dos alemães? W.O.?

Carles: Olha estou de acordo que a diferença nesse time quem faz é o Neymar, mas a virtual dependência não se fez só em função da qualidade dele, mas da proposta conservadora de construir todas as opções do time em torno a ele. A sensação é de que, sem perceber, dia a dia, foi-se reduzindo publicamente não só o peso de cada um dos outros jogadores, como o valor do jogo de equipe. O debate sempre foi em torno das possibilidades de que o outros dez, os menos ruins possíveis, pudessem ou não atrapalhar demais a vida de Neymar ou tentar dar uma pequena ajuda para ele ganhar a Copa. Acho que nem ele nem o entorno dele deveriam ter aceitado essa carga excessiva, mas, claro, aí entra aquele problema, o maior a meu ver do Neymar que, antes de um grande talento, um astro, assume que é um produto pronto, disposto a aceitar todas as embalagens. Diante da circunstância de perder o guia, descarregados de máxima responsabilidade pela contusão de, digamos, 85% do time, era o momento ideal para o comando técnico arriscar de vez e surpreender torcida e adversários. Sinceramente, diante do quadro que você está pintando, eu preferiria ser crucificado por valente.

Edu: Diagnóstico nota dez, solução nota zero. Ser romântico tem limites. Você acha que um grupo de terapeutas de outra galáxia virá para convencer Felipão, em dois dias, de que o mundo não é como ele pensava? É bem fácil e bonitinho falar de longe que é melhor ser um valente morto – quero ver lá dentro, numa semifinal de Copa do Mundo, em casa, contra a Alemanha, sendo que o país está abalado até agora pelo drama de perder seu melhor jogador, e vai continuar assim. Além do quê, com os pés no chão, não podemos esquecer da questão técnica, de usar a cabeça. O que significa exatamente arriscar neste momento? Em sã consciência, o que você faria já, menos de 48 horas antes, para ser ousado?

Carles: Escuta Zé, não estou propondo botar o Marin no lugar do JC. Proponho usar de forma inteligente os próprios recursos. Não sei se orientado ou não, o Bernard tem feito declarações interessantes, tirando importância à contusão do companheiro. Já é um começo. Imagina esse time com ele, o William, o Fernandinho, até o Paulinho com um pouco de liberdade e o Hulk e o Fred se mexendo mais lá na frente? Não fui radical, é só questão de filosofia, menos dramalhão e mais maturidade. Lá atrás tem o grande David Luiz que se não ouvir uma voz que bote ordem na casa, vai querer fazer justiça com os próprios pés, como fez naquela arrancada sem sentido contra a Colômbia. Sei que isso faz todo mundo pirar, mas o time precisa de organização, não de imobilismo nem de caos. E de um certo equilíbrio entre coração e cabeça.

Edu: Bom, se você julga que incluir Bernard e William ao lado dos volantes e manter Fred e Hulk é ser ousado, então há muito boas chances de Felipão seguir o seu conselho. Eu já acho que um pouco de ousadia seria tirar Fred e dar leveza ao time. E jamais trocaria Oscar por William, que fez péssimos minutos nesta Copa, sentiu o peso, foi um fantasma perto do que sabemos que ele pode fazer. Acontece que ser realista é pensar um pouco com a cabeça do comando técnico e só tenho dúvida de quem ficará mais adiantado, porque, no meio, estarão três volantes (com Luís Gustavo de volta), tão certo como Julio César será o goleiro. Não existe possibilidade real de a dupla Parreira-Felipão ter um surto e soltar a franga. E, desta vez, embora continue preferindo outras opções, sou obrigado a reconhecer que eles têm suas razões, simplesmente porque nunca pensaram na hipótese de não ter Neymar. Foi um erro estúpido de planejamento? Claro que foi, mas agora, meu amigo, já era.

Carles: Então tudo bem, mantenham o Oscar e sacrificamos o Fred, o Hulk, o Paulinho ou quem quiser… minha ideia é tirar os grilhões do time que está jogando preso, como quase nenhum dos jogadores está acostumado mais a atuar nos seus times. Quero dizer que é esse o problema e nem tanto os nomes. Por muito que Paulinho tenha esquentado banco durante a temporada ou que o Willian esteja tímido, ninguém esquece de como se joga de um dia para o outro. Se bem que ajuda bastante ficar ouvindo o tempo todo que tem que jogar para que um único jogador salve a pátria.

Edu: Você há de reconhecer que isso exige treinamento, Carlão. Ou não? E continua tendo uma visão de sonhador, enquanto por aqui estamos às voltas com um jogo de verdade contra um favorito e tanto. Não sejamos ingênuos achando que a solução naturalista funciona e que, de repente, os jogadores vão acordar e voltar a ser o que são nos clubes ou já foram em outras vidas. Todo mundo vai continuar falando do Neymar, William ou quem entrar em seu lugar estará condenado a uma pressão animalesca e ‘tirar os grilhões’ por decreto seria um milagre dos deuses, algo nunca visto no futebol. As receitas são poucas, os ingredientes também. Não me iludo: Felipão vai trancar esse time e apostar tudo na intensidade. Principalmente porque é tudo o que ele sabe fazer.

Carles: Bom, então, temos dois europeus clássicos e dois sul-americanos, e são justamente Sabella e Felipão os que estão mais longe da transgressão. Estou convencido de que Löw não pensaria duas vezes se tivesse que improvisar o Götze na lateral para explorar um eventual ponto negro do adversário. Verdade ou não? Mas, tudo bem, sigo morando no meu particular mundo de sonhos, com a esperança de ser surpreendido pelos quatro gigantes do futebol.