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Coisas para se fazer depois dos 90’

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

01 julho 2014 | 21:19

O FUTEBOL DA COPA NUNCA ACABA QUANDO TERMINA

Carles: Parece que já tem gente se organizando para propor que o resto dos jogos do Mundial sejam disputados todos a partir do minuto 80 e mais os 30 da prorrogação. O que vocês acham?

Edu: Eu já proporia que os desclassificados, quase todos, voltassem e começasse tudo de novo. Ninguém se despede desta Copa sem deixar algum rastro interessante. Depois que tudo isso terminar, quero ver o que vão fazer os responsáveis pelos scouts e levantamentos técnicos, porque as atuais planilhas estão todas defasadas com tanta coisa acontecendo nos minutos finais, quando os jogadores já estão no limite.

Carles: Também é compreensível que os atletas encontrem bem lá no fundo um resto de energia, justo quando a água começa bater no pescoço. No caso do Bélgica-Estados Unidos nunca a expressão ‘revulsivos’ foi tão bem empregada como para definir as entradas de Lukako e Green, este com 19 anos, 8 minutos jogados numa Copa e um gol. Deve ser alguma espécie de recorde. Cadê os farejadores de hemeroteca?

Edu: Tenho a impressão que as hemerotecas dividirão suas sessões em antes e depois do Mundial do Brasil. Tem muita novidade junta, Carlão, e acho que como ainda estamos todos muito envolvidos não nos demos conta. Sabe quantos chutes a Alemanha deu no gol anteontem?

Carles: Diga.

Edu: 28! Sabe quantas defesas Tim Howard fez hoje? 21. É um recorde atrás do outro, número de prorrogações, número de gols em prorrogações e por aí vai. Nessas horas é que os números devem servir para algo, porque, embora o marcador às vezes não seja elástico, como hoje, houve um massacre ofensivo da Bélgica como poucas vezes se viu numa Copa. Mas, como o futebol nem sempre foi uma invenção do bem, por pouco os Estados Unidos não ganham o jogo no tempo normal não fosse a ruindade do incrível Chris Wondolowski, que perdeu um gol com Courtois batido no último minuto – um gol daqueles que vovó, já bastante coxa, faria.

Carles: Talvez a grande mudança seja a eclosão de uma geração mundial de futebolistas que, uma vez assimilada e superada a fase da exaltação à preparação física, agora cultuam e praticam o aperfeiçoamento dos fundamentos e entendem a força do futebol associativo. Isso significa uma grande porcentagem de zagueiros que preferem sair jogando sem chutão e procurando um companheiro bem colocado, mesmo correndo riscos. E em contrapartida, tem também muito atacante que quando fica de frente para o gol, depois de uma sequência de combinações, com toques de todas as cores, com todas as partes dos pés dos companheiros, parece não se conformar em simplesmente empurrar para dentro de qualquer forma, e decide buscar a excelência técnica no disparo, com uma curva perfeita para evitar os zagueiros, roçar a pontinha da luva do goleiro e entrar mansinha perto da trave. É só a minha hipótese para explicar que mesmo os zero a zero deixem um bom sabor de boca aos torcedores.

Edu: É bem mais do que uma hipótese, é uma constatação. E aí caímos naquele anacronismo sobre a globalização no futebol, que no aspecto político-econômico sugere movimentos nocivos e antiéticos, mas que na questão técnica tem promovido uma visível evolução. Só mesmo o fato de não haver mais fronteiras explica que times como Argélia, Costa Rica e mesmo Estados Unidos tenham um controle técnico sobre as minúcias do jogo que seria inimaginável 20 ou 30 anos atrás. E, ao contrário do que você defendeu em outras ocasiões, eu vejo nessa evolução um aperfeiçoamento das formas locais de jogo e não a simples incorporação de um modelo, o que tornaria o futebol pasteurizado – e não é isso que estamos vendo. Todos os estilos estão aí em campo, uns mais fiéis outros menos a suas origens, mas estão aí.

Carles: As culturas são elementos dinâmicos e celebro que aprendam umas com outras. Que bom para o apreciador do futebol bem jogado que esse time da Bélgica já se pareça mais com os melhores tempos da vizinha Holanda e menos com os recentes estilos escoceses de tratar a bola e o jogo. Que bom que Marc Wilmots, esse ex meio-campista mais bem combativo, mas que sempre mostrou entender muito bem o funcionamento do jogo coletivo, soube valorizar o talento desses jovens belgas com genes vindos de uma porção de latitudes, alguns de lá mesmo, e está administrado com inteligência essa evolução, sem perder o nexo com uma idiossincrasia local que pede sempre disciplina e entrega. Lógico que em muito graças à evolução tecnológica, podemos acelerar a velocidade do intercâmbio e o aprendizado. Não é isso que eu chamo de pasteurização das culturas, que não é de agora. Por exemplo, o outrora chamado estilo inglês, cheio de carrinhos e chuveirinhos durante muito tempo se impôs ao longo da Europa setentrional (e da menos setentrional também!), numa espécie de ‘estandarização’ castradora da diversidade. Em compensação, agora temos o caso do garoto Julien Green que vai poder absorver muito dos alemães lá em Munique, também um bocadinho da filosofia do tique-taca com Guardiola e fundir tudo isso com a sua capacidade nata, seus dotes próprios. Como demonstrou hoje, por exemplo, De Bruyne, um típico jogador do Norte da Europa como foi Wilmots, mas com grandíssima capacidade técnica.

Edu: Esperamos tanto por Eden Hazard e me aparece Kevin de Bruyne, que jogador esse ruivinho! Provavelmente um produto acabado dos novos tempos, um todo-terreno que sabe dar um drible quando necessário. Vamos ver agora o que fará esse interessante time belga que praticamente só sabe atacar contra Messi e sua rapaziada. Porque os hermanos sofreram o cão, muito mais do que merecia a Suíça aplicada mas muito pão-dura, que só resolveu jogar depois que tomou o gol, ou seja, nos últimos segundos. A Argentina foi mais consistente que na primeira fase, mas tem o mesmo problema do Brasil – um vácuo de criação no meio de campo. É mais um mata-mata imprevisível.

Carles: Observe como o Brasil de Zito, Didi, Dino Sani, Gérson, Rivelino, Da Ghia, Clodoaldo e Falcão, ou a Argentina de Ardiles, Redondo, La Brujita Verón, Riquelme… padecem hoje da falta de capacidade de transição e me diga que isso não é efeito de uma distorção, de um trabalho mal feito, de burda imitação, de um erro de interpretação da idiossincrasia. Enfim, de ouvir um galo cantar e não saber bem onde.

Edu: Nem me fale. Será que os clássicos é que estão cada vez mais modernos?