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A última ceia, com jeito de Irmãos Marx

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

quarta-feira 02/07/14

FELIPÃO CHAMA A MÍDIA PARA CHACOALHAR A ‘FAMÍLIA’

Edu: O que você acha de o técnico da Seleção Brasileira chamar para uma conversa reservada seis – e apenas seis – jornalistas de sua confiança, representantes de uma tropa de elite da mídia esportiva, no momento mais tenso vivido pelo time em sua Copa do Mundo?

Carles: Pouco profissional, pode ser uma tentativa desesperada de chacoalhar o ambiente, de mexer com os brios da turma e, principalmente, deu a impressão da perda total e absoluta do controle da situação. Essa espécie de pacto ou busca de feedback não é nova no futebol, a novidade é como foi feito, sem a mínima sutileza.

Edu: É melhor nem entrar na discussão rancorosa de uma parcela da imprensa esportiva que se sentiu preterida. É coisa de gente que não tem o que fazer e se roeu porque não foi convidada. Ao que consta, e pela palavra de alguns dos insuspeitos que estiveram presentes, Felipão e Parreira queriam ouvir e explicar, ou seja, foi uma reunião que misturou sugestões e providências. É difícil acreditar em um surto de humildade de Felipão, mesmo porque o que os jornalistas envolvidos pensam da Seleção Brasileira está todos os dias em todas as mídias. O que aconteceu então? Uma tentativa explícita de cooptação? Uma medida desesperada de aproximação com profissionais de veículos que o técnico e seu auxiliar julgam líderes de opinião? Uma estratégia de distração?

Carles: Não, não, humildade definitivamente não combina. Cheira a resolução de gabinete de crise. A estratégia de distração parece bastante factível, só que do ponto de vista de comunicação, é uma solução quase suicida, como se no lugar de profissionais de comunicação a Confederação contratasse púgeis (Ops! saiu um clinch sem querer). Tem também a possibilidade de que o objetivo de tudo isso, fato e repercussão, sejam mesmo os jogadores, como se a comunicação direta entre eles e comissão técnica não fosse fluída, como se o grupo não fosse capaz de falar com franqueza e resolver os problemas internos, dos técnicos aos emocionais. Tem ainda uma última possibilidade: fazendo pública a situação antes de falar com os jogadores e prevendo que a vaca pode ir para o brejo, Felipão pode estar se protegendo, inclusive, de um possível motim (autogestão se preferir), tratando de transferir logo  boa parte da responsabilidade, inclusive como forma de conseguir certa cumplicidade dos meios e do público, diante de um possível fracasso.

Edu: Devo entender então que a Família Scolari fez água, é isso? Pode ser, pode muito bem ser isso, porque as mazelas dos jogadores ao que tudo indica estão totalmente expostas. Boa parte da conversa, que durou pouco, foi em off absoluto e aí entra a relação de Felipão com esses jornalistas – ele não se arriscaria com um profissional de língua nervosa ou com o qual não tem relações. Mas dentre as coisas que vazaram da conversa (consentidas, porque imagino que não seja nada do que foi pedido off), duas me chamaram a atenção: o fato de o técnico ter assumido que se equivocou ao convocar ao menos um jogador desse grupo e a confissão de Parreira, reconhecendo que foi um erro manter o esquema da Copa das Confederações. O certo é que, logo após a tal reunião, uma TV a cabo transmitiu uma entrevista em que vimos outro Felipão, muito diferente do arrogante falastrão da primeira fase da Copa, que prometia mundos e fundos. Parecia inseguro, com expressão carregada, falando com muito cuidado, escolhendo cada palavra.

Carles: Parece então que o primeiro que passou pelo divã foi o próprio. Ou ao menos deveria. O certo é que se o grupo está inseguro, emocionalmente instável, é consequência diretíssima das overdoses de adrenalina ministradas de forma sistemática. E se suspender agora, pode ter síndrome de abstinência, e não sei o que é pior. A questão é que estamos falando de estrelas de fama mundial, que vestem as camisas mais cobiçadas do planeta e que saem dessa situação com cara de tontos, de infantis, inconsequentes e teledirigidos sem vontade própria. Quanto ao arrependimento de um dos convocados, ou é uma estratégia brilhante que eu não consigo alcançar ou uma patética tentativa de colocar a mosca atrás de 23 orelhas, o mais básico e simplório dos mecanismos de psicologia inversa, pueril e preguiçosa. Além de tudo, e se for isso mesmo, está se desconsiderando a diversidade que existe em qualquer grupo humano, em que cada um responde de uma forma completamente diferente aos estímulos.

Edu: Só se estímulo mudou de nome. E se essa atitude tiver algo de fundo psicológico, já sabemos mesmo quem está precisando de uma terapia urgente. Bom, pelo jeito, até o atendimento psicológico dos jogadores passa por episódios de bizarrice, como o fato de a profissional envolvida manter contato com muitos deles via whatsapp ou e-mail, um revolucionário divã digital. E para piorar a Comissão Técnica conquistou mais 23 inimigos – os agentes dos jogadores -, que subiram nas tamancas com a exposição pública a que seus pupilos foram submetidos. Aí, depois de muitas horas em que o comando da Seleção ficou correndo atrás do rabo, volta a pergunta que não quer calar: o que fazer para esse time jogar mais bola?

Carles: Só por decreto cósmico mesmo. E não é pessimismo, não. Sinceramente, desde fora, a impressão é que estamos assistindo à cena do camarote dos irmãos Marx, do filme “Uma Noite na Ópera”. Se a reunião com os jornalistas teve a intenção de simular ou induzir a uma aliança, é possível que a campanha de reabilitação já esteja em plena execução. Pelo selfie que Neymar postou e que vários meios reproduziram, com ele diante da mesa de jantar, coincidentemente com alguns dos jogadores de maior peso ao fundo. Nem vou comentar a evidência de montagem realizada por um profissional mais do que treinado em photoshop mas que não considerou algumas indicações que levantam razoáveis suspeitas sobre a presença de Neymar no mesmo tempo e o espaço que o resto, como a camiseta diferente ou a dificuldade de conseguir foco, nitidez e iluminação em todos os planos da foto com um celular ou dispositivo não profissional de fotografia. Para finalizar e já pisando no minado terreno da semiótica, a última das tentações, a de associar a foto com a interpretação digital da última ceia, que não me parece evocar as sensações mais convenientes neste momento.

Edu: Nessa você caprichou. Talvez um dia a gente saiba se tem algum  Judas na parada.